Os Grandes Iniciados

Os Grandes Iniciados

As mentes humanas estão distorcidas, pois desde o primeiro instante da existência que são direccionadas para as necessidades utilitárias. Ensinam-nos Matemática, Geografia, História. A História é totalmente disparatada, e de nada nos serve. Para quê continuarmos a ler sobre a idiotia dos que nos precederam? Qual é o propósito? Que sentido faz pensarmos em Genghis Khan, Tamburlaine, Nadir Shah, Alexandre, Napoleão? Para quê? O que acrescentaram essas pessoas à consciência humana? Todos eles são uma espécie de veneno que impediu de todas as formas possíveis a evolução humana, a revolução humana.

Nos vossos livros de História não se faz menção aos nomes de Lao-Tsé, Chuang-Tsé, Lieh-Tsé, Ko Hassan, nem mesmo nas notas de rodapé. No entanto, estas pessoas foram as autênticas fundações da consciência, humana, e são a sua verdadeira esperança. Apesar disso, ninguém menciona os seus nomes nos compêndios de História. Pelo contrário, os historiadores fazem questão de levantar dúvidas acerca da existência de Jesus, se Krishna foi realmente uma personagem histórica ou apenas um mito, se Mahavira se posicionava na realidade ou não passava de ficção. Para os historiadores, é duvidoso que Buda tenha realmente vivido na terra, e preferem considerá-lo uma projecção dos nossos sonhos ou dos nossos desejos. Sigmund Freud afirma que esses seres são sublimações dos nossos desejos. Segundo ele, desejamos que existam seres assim, mas o facto é que eles nunca existiram, e, mesmo que tivessem existido, as suas existências nunca poderiam ter correspondido às descrições que conhecemos. Foi precisamente essa a causa da divergência entre Freud e o seu discípulo Carl Gustav Jung, divergência essa, aliás, tremendamente importante. Freud é um ser muito pragmático, enquanto Jung é mais poético. Jung reconhece a pertinência e a validade da mitologia, mas não confia na história. Pessoalmente, concordo em absoluto com Jung neste ponto.

Todas as mitologias do mundo estão mais próximas da verdade do que as suas alegadas histórias. No entanto, o que ensinamos às nossas crianças é história, e não mitologia. Ensinamos-lhes aritmética, e não poesia. E a forma como lhes ensinamos um pouco de poesia é de tal forma desinteressante e ente diante que matamos o seu desejo de ler poesia pela vida fora. Concluídos os seus estudos universitários, jamais voltarão a ler Shakespeare, Milton, Kalidas, pois terão desenvolvido uma espécie de náusea pela dimensão poética. Os professores torturam tanto os seus alunos com a forma como lhes transmitem a poesia, que os nomes dos grandes poetas são para sempre banidos dos seus horizontes de leitura. O interesse pela poesia não é estimulado, ou seja, não são encorajados a ter alma poética; perderam todo o interesse pela poesia; não foram incentivados a ser criativos, ninguém os ensinou a ser poetas.

Com os seus comentários, as suas interpretações e a sua alegada forma de ensino, os eruditos são exímios na destruição de tudo o que é belo, e tornam as matérias de tal forma pesadas que a própria poesia perde o carácter poético.

Pessoalmente, nunca assisti a nenhuma aula de poesia na universidade. Fui, inúmeras vezes, chamado pelo director do departamento respectivo, que me dizia:
– Se tu assistes às aulas de todas as outras cadeiras, porque não vais às aulas de poesia?
Eu retorquia: – Porque quero manter vivo o interesse que tenho pela poesia. Não vou a essas aulas porque adoro poesia e porque sei perfeitamente que os vossos professores não são seres poéticos, nada sabendo de poesia. São pessoas que não têm poesia nas suas vidas. Conheço-as muito bem. Passeio todas as manhãs com o homem que ensina poesia na universidade, e nunca o vi contemplar as árvores, ou ouvir o canto dos pássaros, ou apreciar o maravilhoso nascer do Sol.

Na universidade que eu frequentei, o nascer e o pôr do Sol eram maravilhosos. A universidade em causa situava-se no topo de uma colina rodeada de outras de menor dimensão. Viajei por toda a Índia, e nunca vi auroras e ocasos mais belos do que aqueles que se avistavam desse lugar. Por alguma razão desconhecida, na Universidade de Saugar as nuvens adquiriam cores tão intensas ao nascer e ao pôr do Sol que até um cego sentia que estava a acontecer algo de tremendamente belo.

A verdade é que eu nunca vi o professor que ensina poesia na universidade a contemplar um ocaso ou a deter-se por um único momento, Quando ele me via a contemplar um ocaso ou o nascer do dia, as árvores ou os pássaros, perguntava-me:
– Porque estás aqui sentado? Não estás a fazer a tua caminhada matinal? Exercita-te!
Eu respondia-lhe: – Para mim isto não é exercício. Para si poderá ser, mas para mim é um momento amoroso.

Além disso, quando chovia o professor de poesia nunca dava o seu passeio matinal. Quando chovia eu costumava passar pela sua casa, batia à porta e desafiava-o:
– Venha daí!
E ele protestava: – Mas está a chover!
E eu aliciava-o:
– São os momentos mais belos para um passeio a pé, porque as ruas estão completamente desertas. Andar à chuva sem chapéu-de-chuva é tão belo; tão poético!

Ele pensava que eu era louco, mas um homem que nunca tenha caminhado à chuva sob as árvores não pode compreender a poesia. Foi isto que eu expliquei ao director do departamento:
– Aquele homem não é poético, Ele destrói tudo. Ele é um erudito, mas a poesia é um fenómeno de tal forma antierudito que não existe sequer um ponto de encontro entre as duas dimensões.

As universidades destroem o amor e o interesse que as pessoas têm pela poesia, e a ideia de como a vida deveria ser. As universidades transformam a vida numa espécie de matéria-prima lucrativa. Ensinam as pessoas a ganhar mais dinheiro, mas não as ensinam a viver mais profundamente, a viver plenamente. São vislumbres dessa sabedoria que o Tao nos dá; ele abre pequenas portas e janelas para as verdades fundamentais da existência. Nas escolas ensina-se o valor do dinheiro, mas não se ensina o valor de uma rosa. Ensina-se o valor de se ser, por exemplo, primeiro-ministro ou presidente, mas não se ensina o valor de se ser poeta, pintor, cantor ou bailarino. ‘

Temos muito medo de nos perdermos, e por isso passamos a vida a alimentar o ego de mil e uma maneiras. Fazemos, essencialmente, duas coisas com as nossas vidas: fechamos todas as portas e janelas para o Sol, para a Luz, para as estrelas, para a chuva, para os pássaros, para a árvores, para o amor, para a beleza, para a verdade, e, com isso, fechamos todas as janelas, criamos uma sepultura desprovida de portas ou janelas onde nos fechamos à vida. Estamos a tornar- -nos as mónadas de Leibniz. Estamos a transformar-nos em cápsulas fechadas. Vivemos a vida no interior de uma cápsula. Essa é uma das coisas que fazemos na vida. A segunda coisa que fazemos com as nossas existências é erguer muros cada vez mais espessos. É esse o subproduto da competição e da ambição: ter cada vez mais; quer necessitemos quer não, isso não interessa nada.

Pensa o leitor que as pessoas mais ricas do mundo necessitam de mais dinheiro neste momento? Na verdade, essas pessoas têm dinheiro em excesso, que nunca chegam a utilizar, mas o desejo de terem mais é imparável, e não se prende com o facto de necessitarem de mais, mas sim com o engrossar dos muros dos seus egos. Essas pessoas competem constantemente umas com as outras. A competição gera conflito, e o conflito mantém vivo o ego.

A História focaliza-se nos conflitos e nos prejuízos, na maldade. A História concentra-se sobretudo nos criadores do mal. A História está recheada de personagens loucas porque apenas regista o que correu mal. Quando alguma coisa corre supremamente bem, cai fora do tempo e da História.

A História pouco ou nada refere sobre a existência de Jesus. Se a Bíblia não existisse, não haveria qualquer registo sobre a vida de Jesus. No entanto, tenho o dever de o informar de que existiram muitos seres como Jesus, acerca dos quais não existe qualquer registo. A História nunca os mencionou, porque são seres tão pacíficos e harmoniosos, tão silenciosos, tão profundamente sintonizados com as leis da natureza que não criaram qualquer agitação à sua passagem. Apareceram e desapareceram sem deixarem uma simples pegada.

A História não mencionou os budas. É por isso que quando o leitor ouve falar em Buda, ou em Mahavira, ou em Zaratustra, os toma como figuras mitológicas, e não como personagens históricas. É como se esses seres nunca tivessem existido, ou como se apenas tivessem existido em sonhos do homem, ou na poesia de alguns seres mais imaginativos ou românticos, daí o facto de nos parecerem sublimações ou anseios metaforicamente preenchidos. Na verdade, eles parecem ser como cada ser humano gostaria que o ser humano fosse… mas não realidades.

No entanto, foram pessoas reais, tão reais que não deixaram marcas.

 

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Bodhidharma

No longo percurso da consciência humana, nunca houve um buda tão singular como Bodhidharma – um ser extremamente raro, original e exótico. George Gurdjieff aproximou-se do que foi Bodhidharma, mas apenas em pequenas coisas.

Houve muitos budas no mundo, mas Bodhidharma destaca-se como o Evereste. A sua maneira de ser, de viver e de exprimir a verdade foi única e absolutamente incomparável. Mesmo o seu mestre – Buda Gautama – não pode ser comparado a ele. Até para o próprio Buda teria sido difícil digerir este homem.

Bodhidharma viajou da Índia à China para difundir a mensagem do seu mestre. Apesar de separados no tempo por um milénio, para Bodhidharma e para homens como ele, o tempo e o espaço são irrelevantes, ou seja, para Bodhidharma, Buda era um contemporâneo. Em termos superficiais, houve uma lacuna de mil anos entre Buda e Bodhidharma, mas, no que respeita à essência da verdade, não existe qualquer lacuna. Na circunferência, Buda já tinha morrido há mil anos quando Bodhidharma entrou em cena, mas no centro do círculo eles estão juntos, ou seja, Bodhidharma exprime a essência de Buda de uma forma tão sua e com um estilo tão seu que até o próprio Buda teria sentido estranheza.

Buda era um homem muito culto, sofisticado e elegante. Bodhidharma era o oposto na sua forma de expressão. Ele não era um homem, era um verdadeiro leão. Ele não falava, rugia. Não tinha a elegância de Buda Gautama. Era rude, selvagem. Não era um diamante polido, e sim um diamante em bruto, absolutamente natural, sem polimento, e é precisamente nisso que reside a sua beleza. Buda tinha uma beleza muito feminina, era muito frágil e delicado. Bodhidharma tinha outro tipo de beleza, como a de uma rocha – era forte, másculo, indestrutível e muito poderoso.

Buda também irradia poder, mas um poder muito silencioso, como um sussurro, uma brisa fresca. Bodhidharma é uma tempestade, uma trovoada com relâmpagos.  Buda chegava a casa das pessoas sem fazer qualquer ruído, sem sequer bater à porta, sem que se oiçam os seus passos, mas quando Bodhidharma se aproximava, até as fundações da casa tremem.

Buda é de tal forma subtil que não despertaria o leitor caso tivesse adormecido, enquanto Bodhidharma era capaz de despertar um morto. Bodhidharma é incisivo, como um martelo. É o oposto de Buda na sua expressão, embora a sua mensagem seja a mesma. Bodhidharma reverencia Buda como seu mestre, e nunca diz: «Esta é a minha mensagem.» Diz, simplesmente: «Este conhecimento pertence aos budas, aos budas ancestrais. Eu sou apenas um mensageiro. Nada me pertence, porque eu não sou. Sou apenas um bambu oco que foi escolhido pelos budas para ser uma flauta. Eles cantam, e eu apenas permito que cantem através de mim.

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Bodhidharma nasceu há catorze séculos e era filho de um rei no Sul da Índia. Nessa época havia um grande império, o império dos Pallavas. Bodhidharma foi o terceiro filho do seu pai, mas, como era um homem de profunda perspicácia e de uma tremenda inteligência, renunciou ao reino. Não era contra o mundo, mas não estava disposto a desperdiçar o seu tempo em temas mundanos, em trivialidades. A sua prioridade máxima era conhecer a sua própria natureza, porque o não conhecimento do eu implica a aceitação da morte como o fim.

De facto, todos os seres que verdadeiramente procuram lutam contra a morte. Bertrand Russell chegou a referir que se não houvesse morte, não haveria religião. Há que reconhecer alguma verdade nessa afirmação, com a qual não concordo totalmente, pois vejo a religião como um universo muito vasto. No meu entender, a existência da religião não se prende apenas com a morte, mas também com a procura da beatitude, da verdade e de um significado para a vida. A religião tem muitas facetas. No entanto, Bertrand Russell não deixa de ter razão: se não houvesse morte, seriam muito poucas as pessoas que se interessariam pela religião. A morte é, sem dúvida, o maior incentivo religioso.

Quando Bodhidharma renunciou ao reino, disse ao seu pai:
– Se não podes salvar-me da morte, por favor não me retenhas. Deixa-me ir em busca de algo que transcenda a morte. ‘

Aquela foi uma bela época, em, particular no Oriente. O Pai de Bodhidharma pensou um pouco e disse:
– Não te impeço de partires, pois não posso impedir a tua morte. Parte para a tua procura com a minha bênção. É triste para mim ver-te partir, mas esse é um problema meu; é o meu apego. Tinha esperança que viesses a ser o meu sucessor, de que te tornasses o imperador do grande Império Pallavas, mas escolheste algo mais elevado do que isso e eu sou o teu pai… Como poderia impedir-te de seguires o teu caminho?

“Além disso colocaste a questão com uma tal simplicidade que me apanhaste desprevenido. Disseste isto: «Se puderes impedir a minha morte, não deixarei este palácio, mas se não puderes, por favor não me impeças de partir.”